fbpx

Biografia ambiental

Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no facebook
Compartilhar no email

Conceito propõe reviver as moradias do passado e as experiências dentro daqueles espaços para, a partir dos materiais, formas, texturas e cores de nossas lembranças afetivas, construir novas boas memórias com influência de momentos felizes

 

Por Fernanda Olinto*, colunista

 

Poucos já ouviram falar sobre biografia ambiental ou já tenham feito a sua. Esse termo e processo se desenvolveu em uma sala de aula de arquitetura e urbanismo, em 1979, quando a professora Clare Cooper Marcus* decidiu solicitar aos seus alunos que compusessem suas então -biografias ambientais. Com o intuito de instigar os alunos a enxergarem conexões profundas entre ambientes significativos de suas histórias e o caminho que seria condizente seguirem em suas vidas profissionais, essa nova prática nortearia suas escolhas.

 

A biografia ambiental era então a história de cada aluno contada em forma de suas casas já vividas. Revirava o passado ambiental deles para possivelmente indicar suas reais vocações e guiar indiretamente suas decisões sobre arquitetura e design. Ou seja, reviver as moradias do passado e as experiências dentro daqueles espaços, para assim tornar possível construir uma linha do tempo indicativa de um estilo profissional e individual ainda escondido, mas que eventualmente viria à tona.

 

memória afetiva ambiental

 

Isto ocorre, pois, a história individual de cada um molda grande parte do que somos, logo ela pode ser buscada de forma consciente a partir da biografia ambiental, adiantando o processo de descobertas. Nossa memória é estruturada em torno dos lugares onde estivemos e vivemos, e esta técnica prevê que as lembranças que guardamos e mantemos destes espaços delimitam nossos gostos ambientais e preferências do presente.

 

Foi requisitado aos alunos que desenhassem as casas de suas memórias e os ambientes dos quais as experiências mais significativas de suas infâncias ocorreram. Na sequência, o caminho se tornou fácil, ficou nítido o quanto guardamos de nosso histórico ambiental e o quanto tudo à nossa volta carregamos para o futuro. Investigar a conexão emocional existente entre os alunos e suas casas do passado, e também do presente, se tornou uma experiência importantíssima. Descobriu-se no processo que especialmente a moradia da infância provou ter uma influência especial e um peso maior do que as restantes. Isto pode ser explicado porque durante a infância desbravamos nossas primeiras experiências em todos os âmbitos, o que as tornam mais marcantes, e os espaços participam e contemplam essas vivências.

 

lembrança de casa antiga

 

A maioria de nós está desatento ao efeito indireto que as casas exercem sobre nossa pessoa. A biografia ambiental não é sobre os ambientes em si, mas sim sobre as experiências vividas neles, são elas que importam. Boas ou ruins, são as experiências que determinam o que, individualmente, devo repetir ou evitar em ambientes futuros. Ativar a memória e buscar estas lembranças é rever o passado particular de cada um, à procura de referências profundas e positivas para então unir informações suficientes e assim criar espaços que sejam absolutamente corretos para determinada pessoa. Criando a possibilidade, a partir dos materiais, texturas, formas e cores, de construir novas boas memórias com influência de momentos felizes anteriores.

 

É a lembrança do piso de taco da casa da vó, onde você passava grande parte do seu tempo em dias leves e divertidos que o leva como adulto, por exemplo, até hoje a gostar de pisos de taco. É a memória remota de outra pessoa em sua casa de infância, que também possuía pisos de taco, onde seus pais se separaram, que leva esse outro indivíduo a não gostar do respectivo acabamento.

 

 

As vivências determinam nossa vontade de querer ou não relembrar determinados episódios, direcionadas pelos sentimentos desencadeados no momento, e também pelas consequências posteriores de cada evento. O experimento da biografia ambiental mostrou-se válido, pois surpreendentemente as experiências mais importantes, positivas ou negativas, quando relembradas são imediatamente associadas com o local onde ocorreram.  Guiando um processo natural de evitar repetir os momentos em que sentimentos ruins vieram à tona, e potencializar e reproduzir ao máximo os momentos de sentimentos agradáveis.

 

Descubra e avalie sua biografia ambiental, entenda os materiais, cores, formas e estilos que remetem a lembranças boas e livre-se daqueles que despertam memórias ruins. Ao futuro, caberá ao profissional aplicar a biografia ambiental em sua metodologia de projeto, caminhando junto ao cliente pelo seu histórico ambiental, auxiliando em decisões de criação baseadas em memória afetiva.

 

***

*Fernanda Olinto é designer de produto e de interiores e mestre em Arquitetura e Urbanismo


Fontes:
MARCUS, Clare Cooper. House as a mirros of self. Nicholas-Hays: Florida,2006.
GALLAGHER, Winifred. House Thinking. Harper Perennial: New York, 2007.
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no facebook
Compartilhar no email

LEIA TAMBÉM

Casa Docol

Com projeto arquitetônico do escritório MM18 Arquitetura, espaço conceito da Docol faz…

Inspiração neoclássica

Imponente e aconchegante, projeto à beira mar, em Santa Catarina, transita entre…

Loja própria

A designer Linda Martins inaugura a primeira loja do Studio Linda Martins,…