Design com propósito

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Em sua coluna de estreia na IT HOME, o prestigiado designer Pedro Franco escreve sobre o design pós-pandemia

Fui convidado por meu amigo e publisher da IT HOME, Denis Nunciaroni, para escrever uma coluna. Confesso que há tempos vinha pensando em ter um canal para compartilhar pensamentos e reflexões. Mas, um canal no qual cada texto termine com “…” (reticências) e não com “.”(ponto final).

Na velocidade de tantas mudanças que vimos presenciando, não ouso estacionar num único pensamento. Frases como “só sei que nada sei” (Platão) e “prefiro ser essa metamorfose ambulante” (Raul Seixas) fazem parte do meu SER designer nos dias de hoje. E, dado isso, sintam-se convidados ao diálogo.

Um tema que vêm me “provocando” nesses últimos meses é sobre a responsabilidade e a importância do design perante esta pandemia mundial. Se num primeiro momento tive uma grande crise existencial – afinal, médicos estão salvando vidas e eu, por aqui, pensando em novas criações e produtos – este pensamento se acalmou após algumas leituras filosóficas.

A arte e seus desdobramentos, como arquitetura, design, filosofia, quando têm seus devidos valores expressos, tornam-se atemporais. E essa atemporalidade, no entanto, não é obtida em função do uso de matérias primas “sofisticadas”, como ouvi outro dia em algum lugar. Mas, sim, é alcançada quando plena de significados, arquétipos que traduzam o momento em que vivemos.

Assim é quando analisamos o recuo histórico dos tempos. As obras, ao meu ver, se perpetuam e registram uma época muito mais que qualquer pessoa ou personagem. Sendo assim, sob a ótica de nossa insignificância em comparação ao planeta, a arte é fundamental para o registro histórico.

Parafraseando Dostoiévsky, “a arte salvará o mundo”. E seguindo Confúcio, “cada coisa tem sua beleza, mas nem todos a vêem”. De meu lado, acredito na intersecção dos dois pensadores. É cada vez mais necessário criarmos ou consumirmos produtos “belos” para salvar o mundo. Mas produtos com uma beleza verdadeira, interna, além da estética.

É momento de um consumo com maior responsabilidade. O que me leva a refletir, mais uma vez, sobre o design de um produto. Acredito que um belo produto de design é uma grande plataforma. Que conte histórias, que traduza arquétipos, que retrate uma sociedade. Que traga manifestos e que se responsabilize por um novo mundo.

Recordo de retornar do Salão de Milão 2019 horrorizado com o crescimento de um pensamento sobre a criação de produtos feitos por designers conjuntamente à Inteligência Artificial. Ou ainda de uma recente visita a um industrial, que implementava a robotização produtiva e orgulhava-se de que em poucos meses demitiria 90% de seus funcionários.

Já naquele momento refletia com meus botões: em que mundo viveremos? Pois bem, cá estamos. A falta de humanidade nas relações de trabalho, um consumo inconsciente e desvairado, com eterna busca pelo “barato” nos trouxe até aqui, nos tempos de pandemia.

Acredito que todos tivemos – e estamos tendo – a possibilidade de um grande “repense” em nossa vidas. Todos nos tornamos um pouco filósofos. Será que precisamos realmente de mais do que temos em nossas casas? Ouso dizer que temos mais do que precisamos. E cabe mais uma vez a reflexão: será que os objetos que dialogam conosco nesses dias de isolamento, quase como um familiar, têm histórias suficientes para nos alimentar?

Sim, acredito que produtos contam histórias. Creio também que o design pode deixar o mundo mais belo, na maior amplitude da palavra. Afinal, estamos nesse exato momento usufruindo de produtos de design: o computador, a caneta, a vestimenta, o sofá ou a poltrona para leitura e a iluminação de seu espaço. Tudo é design.

Como seria se cada um desses produtos tivessem uma real história, se traduzissem o contexto sobre por quê foram produzidos, quem os criou, de que país vieram? E se conseguissem mesclar a tecnologia (que tantas boas coisas nos possibilita em tempos de isolamento, deixando tudo literalmente nas palmas das mãos) juntamente a valores sociais?

Que tal um pacto por um mundo menos pasteurizado, comprando e adquirindo produtos com alma e com diferentes histórias? Um produto que traduza alma do interior do Ceará, outro que carregue um pouco da milenar história da China ou, então, que nos traga os valores verdadeiros do “Made in Italy”?

Obviamente falamos de descentralização de produção, maiores custos e por consequência preços mais elevados. Mas volto à pergunta feita acima. Precisamos de tudo aquilo que vínhamos consumindo como sociedade?
A palavra de ordem , e que alimenta nosso âmago, é UTOPIA. Eu acredito….

 

***

Pedro Franco é um dos mais prestigiados designers brasileiros, premiado por suas criações globais que valorizam as raízes e matérias-primas do Brasil. Desde 2013 participa oficialmente do Salone del Mobile, em Milão, e há três anos ocupa o principal pavilhão da feira, ao lado das marcas mais importantes do setor

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