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Perspectivas do morar

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1o especialistas ouvidos por it HOME fazem uma reflexão sobre o morar e contam o que deve predominar neste e nos próximos anos nos projetos de interiores

Texto: Dan Brunini

Passado o susto e o aprendizado da pandemia do Covid-19, a casa e, consequentemente, o morar com qualidade ganharam novos significados. As apostas para o que predominará em 2024 são variadas, sempre em torno do tão almejado bem-estar. Além de porto-seguro e refúgio, o lar é o cenário favorito para momentos de trabalho e curtição. É onde aprendemos que podemos ser disciplinados e produtivos e, ainda assim, festejar e receber mais e melhor do que fazíamos antes. Descansar, ter leveza e tempo para desfrutar de tudo isso são os anseios atuais. Como resposta, praticidade, conectividade, resgate e valorização das memórias são as palavras mais citadas pelos especialistas ouvidos por it HOME nessa verdadeira reflexão sobre o que devemos aguardar para esta e as próximas temporadas.

 

Raquel Dommarco, especialista de Tendências na WGSN.

“Na WGSN já estamos falando há algum tempo sobre a ascensão da cultura do cuidado e a necessidade de combater a crise climática de forma proativa. Em 2024, esses serão conceitos-chave para o design e a arquitetura. Seja no design de produtos para o trabalho híbrido e semanas de trabalho mais curtas, ou na criação de itens e serviços portáteis que recriam a sensação de “casa em qualquer lugar”, será esperado que os espaços ajudem as pessoas a alcançar uma vida mais equilibrada e a cuidar do futuro. Trabalhar com subprodutos e resíduos de produção também será um passo fundamental para estratégias de design mais circulares. Trocar a mentalidade extrativista pela regenerativa será essencial para as empresas que pretendem liderar nesse cenário, assim como inserir a natureza no projeto ou design, permitindo que ela defina espaços, produtos ou até quantidade de estoque disponíveis. As árvores para ambientes internos continuam a ser relevantes e o fomento da biodiversidade local deve respaldar o design em todas as escalas e níveis.”

 

Completamente aberta, a Casa da Árvore, assinada pela Suite Arquitetos na CASACOR SP de 2018, integra o jardim às áreas de convívio. O destaque é o imenso flamboyant, cuja base é coberta por costelas-de-adão. Toda a escolha de mobiliário e objetos decorativos foi baseada na presença marcante da árvore / Foto: Ricardo Bassetti

 


 

Pedro Ariel, Curador da CASACOR

“Para 2024, a palavra da vez é ancestralidade. Tudo o que se refere ao que é ancestral é uma tendência. Na arquitetura, desde o resgate de técnicas construtivas, dos nossos antepassados, como taipa de pilão, entram nessa lista, que também buscar ser amiga do meio ambiente, causar menos danos na natureza, menor impacto ambiental. Esse resgate de sabedorias antigas se estende para os elementos da casa, como as cestarias e bancos indígenas ou até símbolos das culturas africanas. Podemos dizer que os elementos das culturas africanas, que ficaram meio escondidos durante muitos anos, devido ao preconceito (que reduziu, mas ainda existe, claro) ganharam outro ponto de vista. Hoje, existe uma afirmação dessas culturas que foram silenciadas ao longo dos séculos todos e isso não só Brasil como no mundo todo. Em resumo, ancestralidade, resgate da cultura dos povos originários, retomada de técnicas tradicionais que causam menor impacto no ambiente, valorização de produtos artesanais, simbologias e culturas são as grandes apostas para 2024.”

 

No Refúgio Conexão, espaço da arquiteta Isabella Nalon para a CASACOR SP 2023, há uma busca pelos materiais naturais e pelo artesanato brasileiro, seja com luminárias, obras de arte e cestarias. No tapete, um exemplo de preocupação com a natureza: o processo produtivo reaproveita garrafas PET em sua composição | Foto: Rafael Renzo

 


 

Maurício Borges, presidente executivo da Expo Revestir e Anfacer (Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres)

“No que se refere aos revestimentos, sem dúvida, os grandes formatos foram destaque no último ano e têm tudo para continuarem em alta. Também conhecidos como lastras ou super formatos, são peças que chegam com altura de até 2,5 m. As lastras configuram um ambiente com visual amplo e uniforme, além de trazer sofisticação e elegância, requisitos que nunca podem faltar. Isso é possível por meio do constante investimento em inovação e tecnologia no setor cerâmico, que se destaca como grande produtor mundial, sendo o terceiro maior produtor do mundo e o sexto maior exportador”.

 

Neste ambiente de bases neutras, o destaque fica por conta do porcelanato Fulmine, inspirado no mármore francês Saint Laurent. Produzido pela Roca Cerámica, cada placa mede incríveis 1,60 x 3,20 m

 


 

Jamil Rima, presidente da ABUP (Associação Brasileira das Empresas de Utilidades e Presentes)

“Nos últimos tempos, a casa ganhou um outro significado. A gente começou a olhar os ambientes sobre uma nova ótica, começou a sentir falta de algumas coisas em casa que não percebíamos antes. Também ficou mais latente a vontade de ocupar melhor os espaços, otimizar os ambientes…. Tudo isso continua, mas agora a gente precisa ir um pouco além. As escolhas para nossa casa precisam ir além do design impecável, de materiais resistentes, lindos, precisamos fazer escolhas mais sustentáveis e selecionar o que é, de fato, útil e prático. Nada mais justo do que a gente ter mais tempo para nós mesmos, para a nossa família, do que ficar simplesmente só limpando e cuidando da casa. E então, partindo disso, as peças e os produtos cada vez mais úteis vão ganhar espaço. São aqueles itens charmosos, mas também funcionais.  Objetos que você tanto vai usar no dia a dia quanto também querer exibir como algo decorativo. Então, o útil, o prático e, sobretudo, bonito. Isso é uma grande tendência em todo o mundo e no Brasil não é diferente.”

 

Design, forma e função. A casa com itens lindos e práticos é uma aposta que vai perdurar em 2024. Os materiais naturais, com estilo rústico, também estão com tudo e marcam presença em móveis e acessórios. Nesta foto, a coleção assinada por Ju Amora para a Casa Bonita, apresentada na Abup Decor Show | Foto: Divulgação

 

 


 

Guto Requena, arquiteto

“Eu acredito cada vez mais nos projetos biofílicos, ou seja, a gente integrar arquitetura, cidades, plantas, materiais naturais e materiais biodegradáveis. É a necessidade de trazer a natureza para perto. Isso eu aposto muito e venho usando nos meus projetos com bastante força. Um exemplo é o meu apartamento, onde construí verdadeira floresta urbana. Outra aposta, que tem tudo a ver com o que a gente faz, é a questão da tecnologia interativa. Então, imaginar que os espaços vão responder a estímulos, que a gente vai adicionar sensores, microcontroladores, computadores integrados à matéria da casa, à matéria dos espaços. Imaginar que esses espaços podem, literalmente, reagir e interagir com as pessoas. Essa história da tecnologia interativa e reativa vai continuar a acontecer com muita força em 2024.”

 

Em seu apartamento, em São Paulo, o arquiteto Guto Requena criou uma verdadeira floresta urbana. O gerenciamento da casa pode ser controlado virtualmente via dispositivos móveis ou no próprio local, através dos keypads inteligentes ou por comandos de voz, permitindo configurar diferentes cenários, do dia-a-dia a uma estação de trabalho, festa ou cinema. Acessos, iluminação, irrigação, áudio e vídeo, cortinas e mobiliários são automatizados | Foto: Mayra Acayaba

 


 

Paulo Mourão, presidente da ABIMAD (Associação Brasileira das Indústrias de Móveis de Alta Decoração)

“Existem algumas tendências já perceptíveis nas coleções de móveis de alta decoração, que são a utilização de matéria-prima natural, mantendo a conexão com o meio ambiente e a sustentabilidade, além de propiciar uma textura aos ambientes com a utilização de madeiras, pedras e tecidos na composição dos móveis. Os móveis manterão as formas arredondadas e orgânicas, assegurando uma atmosfera aconchegante e valorizando o conforto do lar. É importante observar a utilização de tecnologia nos móveis e a interação do usuário com o mobiliário, principalmente nos produtos modulares, que permitirão composições diversificadas para atender de forma individualizada as necessidades de cada um. E, por fim, um toque de natureza dentro de casa, com a decoração voltada para elementos naturais e com componentes de design alinhados com o meio ambiente.”

 

Neste apartamento com vista para a baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, todos os materiais, cores, texturas e móveis foram cuidadosamente escolhidos pelo escritório PKB Arquitetura para criar uma atmosfera acolhedora e vibrante, em total sintonia com a natureza / Foto: Juliano Colodeti / MCA Estúdio

 


 

 

Blanca Lliahnne, da Pantone Brasil

Estamos em uma nova fase, onde a casa tem de ser ainda mais leve e agradável. Valorizamos o toque, os cheiros, a sinestesia e, assim, ela tem de encantar e despertar sentimentos, não só de diversão, mas de experiências e bons momentos. Em busca de fugir do senso comum, vamos substituindo os pequenos elementos nos ambientes, como posteres, almofadas e cachepôs, para conquistar aconchego. As escolhas acontecem não pela necessidade, mas pelo desejo… há o interesse de enfeitar a casa, trazer elementos novos e surpreender. E dentro desse contexto, o Peach Fuzz, eleita a cor de 2024 pela Pantone, entra como um tom gentil e aveludado, com uma aura cativante que enriquece nossa mente, corpo e espírito. Não houve época, até agora, onde a matéria-prima e as superfícies em si (tecidos, cimentícios, tintas etc.) estivessem mais exaltadas do que as cores, convidando ao toque dentro de casa. As texturas, as superfícies têm que ser muito acolhedoras, precisam despertar o interesse e nos envolver.

 

Eleita a cor de 2024 pela Pantone, a Peach Fuzz traz uma sensação de gentileza e acolhimento, comunicando uma mensagem de cuidados e compartilhamento, vida comunitária e colaboração. Enquanto centrada na experiência humana de enriquecimento e nutrição da mente, corpo e alma, também é um tom de pêssego quieto e sofisticado além de contemporâneo, com profundidade, cuja leveza é despretensiosa, mas impactante, trazendo beleza para o mundo digital | Divulgação: Pantone

 


 

Nildo José, arquiteto

“O tempo, com certeza, aparece no topo da lista como o elemento de maior tendência. Tempo de qualidade, tempo ocioso, tempo desconectado, tempo lendo um livro, tempo com amigos, tempo para respirar! E a casa pode e deve ser pensada nessa necessidade de pausa, priorizando espaços acolhedores, cheios de ventilação e luz naturais, abraçados pelo verde, sempre que possível. Também entram na lista de apostas para 2024, dando continuidade aos anos anteriores, claro, os elementos naturais, como as fibras, presentes em tecidos, luminárias, cestarias e objetos em geral, conectados com o tempo natural das coisas.”

 

Espaços iluminados, claros e fluidos são perfeitos para desconectar e ler um livro, com o paisagismo ao fundo, conectado com a casa neste projeto de Nildo José | Foto: Fran Parente

 


 

Marcelo Mujalli, presidente da ABD (Associação Brasileira de Designers de Interiores)

“Um dos pontos mais importantes é o uso do nosso artesanato brasileiro, tendência que continuará forte em 2024. Nós temos uma gama muito grande de pessoas incríveis que fazem arte e desenvolvem produtos naturais, com as nossas origens. Isso foi muito usado em várias mostras CASACOR, desde produtos de decoração, objetos, luminárias, mesas, cadeiras, com a grande vantagem de serem regionais, valorizando as comunidades desse Brasil imenso. Outro ponto alto são as texturas nos ambientes, além dos materiais naturais, como a madeira e a pedra. A nossa pedra, que conta com uma variedade bem ampla de tonalidades incríveis, também tem todos os atributos para nos surpreender ainda mais. A gente percebe que elas estão indo bastante para fora do Brasil, porque a demanda é grande, principalmente o mercado europeu e americano, e acredito que precisamos começar a valorizar esses nossos produtos.”

 

Protagonista deste ambiente da arquiteta Patrícia Penna, o mármore nacional com acabamento polido ganha força de obra de arte e se destaca na decoração com móveis minimalistas da Artefacto | Foto: MCA Estúdio

 


 

Roberta Banqueri, designer

“Confesso que não sou uma pessoa tão ligada ou presa às tendências e a minha busca vai ao contrário, pois tento sair do trivial, desenhar algo diferente. Não é ir contra a tendência, mas encontrar o que eu sinto que é real, natural, dentro de tantas coisas predeterminadas. De toda maneira, o que nunca sai de moda e está sempre em alta é a funcionalidade, o aconchego e a ergonomia, esses requisitos são essenciais e não podem ficar de fora. Necessitamos de algo que proponha o descanso da alma, porque a gente está muito agitado e não há nada mais importante do que estar em casa, seguro com esse sentimento. Ao mesmo tempo, não podemos fechar os olhos para o fato de o mundo todo estar em busca de paletas que remetem à natureza, que trazem essa ligação com a terra, significam descanso e bem-estar. Sendo assim, os tons de rosa, areia e as cores suaves, os tons pastel, possibilitam isso e, de alguma maneira, são apostas no segmento de decoração, arquitetura e design.”

 

Neste projeto do escritório Paiva e Passarini, o sofá Pedras, com design de Roberta Banqueri, está em total conexão com a natureza e aposta num tom que remete à natureza e ao descanso | Foto: Xavier Neto

 

 

+ PRA VOCÊ: Entrevistamos o arquiteto e designer italiano Simone Micheli

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